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Retrato da nossa riqueza - Revista Village Arte Decor

Publicado em 05 de Novembro de 2015.
Foto: DIvulgação

Por Ronaldo Victoria

 
Se hoje o Monte Alegre transmite uma sensação de paz e tranquilidade, aquele pedaço de Piracicaba já foi o símbolo da nossa riqueza, da nossa pujança econômica, da cultura canavieira que até hoje nos projeta. Monte Alegre já foi a nossa vanguarda financeira, hoje é o retrato da tradição que o Village Arte Decor quer preservar. “Mais que um nome mágico, Monte Alegre é um lugar como que sagrado: relicário ecológico e patrimônio histórico-cultural”, define, sem economizar poesia, o jornalista e escritor Cecílio Elias Netto, que lançou recentemente o livro Piracicaba que Amamos Tanto.
 
“O bairro, e especificamente a Usina Monte Alegre, fazem parte da história do setor sucroalcooleiro, como referência em produção de açúcar e álcool e, consequentemente, da história de Piracicaba e do Brasil. Monte Alegre é um retrato do ciclo canavieiro não apenas da cidade, mas do país”, concorda o pesquisador e escritor Pedro Caldari, ex-presidente do IHGP (Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba). O retrato do Monte Alegre, como afirmam os dois historiadores, vai da glória à decadência em menos de um século. Começa com os barões dos engenhos de açúcar, como José da Costa Carvalho, o marquês de Monte Alegre; tem seu auge no empreendedorismo de Pedro Morganti, e chega ao fracasso nos anos 70, quando não se renovou. “A usina do Monte Alegre foi considerada a segunda do Brasil, atrás apenas do Engenho Central. A fábrica de papel do Monte Alegre foi pioneira na fabricação de papel a partir do bagaço de cana. A decadência se deve às mudanças do próprio setor sucroalcooleiro, crises e transformações econômicas das décadas de 1960 e 1970”, explica Caldari.
 
COMEÇO
Em sua fase de glória, nada anunciava a derrocada. Em meados do século 19, os barões do café dominavam a economia. Poderosos, mandavam e desmandavam no Vale do Paraíba e no Oeste Paulista. Mas Piracicaba não seguia a norma. A cana-de-açúcar é que imperava por aqui e as terras férteis do município atraíam a cobiça de ricos senhores. Um deles foi José da Costa Carvalho, que se casou com a viúva do famoso brigadeiro Luís Antonio de Souza e deixou sua marca em Piracicaba, mesmo não morando na cidade.
 
Carvalho passou a ser conhecido como marquês de Monte Alegre, e foi o primeiro ícone do bairro. “Ele foi um homem à frente do seu tempo. Não era apenas um senhor de terras, mas também um pensador, suas ideias marcaram a intelectualidade brasileira do século 19. Tanto que fundou o primeiro jornal de São Paulo, O Farol Paulistano. À frente do engenho Monte Alegre, adquiriu terras da vizinhança, indo até depois do Taquaral”, destaca. Era a primeira metade do século 19, quando o município ainda era conhecido como Vila Nova da Constituição. Na época, o engenho chegava a produzir 1.000 arrobas de açúcar branco. No período final do século, Monte Alegre tinha as senzalas, mas encontrava dificuldade
para conseguir escravos. Naquele período já se começava a pensar numa ‘política de colonização’ com imigrantes. Naquela época, morre o marquês de Monte Alegre, e sua viúva Maria Izabel se casou com um primo dele, Antonio da Costa Pinto e Silva, que ficou conhecido como conselheiro Costa Pinto. Por conta da influência política e social de Costa Pinto, Piracicaba e o Monte Alegre passaram a receber visitas ilustres, como o presidente da província de São Paulo, quando inaugurou o abastecimento de água em Piracicaba. E, como lembra Cecílio
Elias Netto, o escritor José de Alencar, que preferiu ficar em Monte Alegre. “Colega de turma de faculdade de Costa Pinto, o escritor era apaixonado por ambientes rurais, apesar de criticado por não ser fiel às paisagens que descreve. Ele se inspirou no Monte Alegre para escrever Til, ambientado no clima rural de Piracicaba e Santa Bárbara d’Oeste. O nome Til é de um garoto, inspirado no acento gráfico, semelhante às curvas do rio Piracicaba”, lembra o escritor.
 
MORGANTI
Com a morte do Conselheiro, em 1887, o Monte Alegre passa por várias mãos. Nos primeiros anos do século 20, a riqueza do engenho é indiscutível, com a produção anual de 5.000 sacas de açúcar branco. E tudo começa a mudar de vez com a chegada do italiano Pedro Morganti, em 1904. Nascido em Bozzano, na Itália, em 2 de abril de 1876, ele já estava com a família em São Paulo, em 1890, mas retorna ao país natal para cumprir o serviço militar. Volta ao Brasil cheio de ideias e enxerga no Monte Alegre o palco para seu desejo de empreender. E transformar.
 
Cecílio define a fase Morganti como a mais progressista do Monte Alegre. Até porque seu patriarca tomava contato, em São Paulo, com outros trabalhadores italianos que escolheram o Brasil, caso de Francisco Matarazzo. “Pedro Morganti organiza a Companhia União dos Refinadores. A ideia surge a partir das vantagens que Pedro enxerga em reunir, em uma só empresa, a matéria-prima e o produto acabado. As usinas plantariam e produziriam ao mesmo tempo. É a partir desta visão que, no mesmo ano, ele adquire o Engenho Central do Monte
Alegre e o transforma na nova Usina Monte Alegre. Começa, assim, a grande fase não apenas do Monte Alegre, mas da indústria açucareira no Brasil”, conta Cecílio. Os números da safra não mentem. Se em 1912 a produção foi de 13 mil sacas de açúcar, em 1917 sobe para 48 mil sacas.
 
“Fundador, patriarca e referência como empresário para o momento histórico que representa a usina Monte Alegre e a fábrica de papel.” Assim Caldari define Pedro Morganti. O escritor também cita as raízes italianas e o espírito desenvolvimentista do empresário. “Pedro Morganti foi contemporâneo de Pedro Ometto, Mário Dedini e outros imigrantes italianos que se fixaram em Piracicaba e contribuíram muito para a criação de empresas de alcance e importância nacional. 
 
Também contribuiu para obras de benemerência na cidade. A usina foi fundada por Pedro Morganti com apoio dos filhos Hélio (engenheiro, excelente técnico açucareiro) e Lino (profundo conhecedor de celulose)”, destaca.
 
Apesar de alguns entraves, como a ocorrência de uma praga chamada mosaico, em 1925, então combatida pelo agrônomo José Vizioli, Monte Alegre só prospera, a ponto de contribuir de forma definitiva para a liderança do setor açucareiro nos anos 1940. Ao mesmo tempo, Morganti cuidou de instalar uma série de equipamentos sociais em Monte Alegre, não apenas as casas dos funcionários, que, como lembra Cecílio, tinham o conforto dos centros urbanos. “Eram casas bem construídas, de tijolos, servidas por rede de água tratada e esgoto, além de instalações elétricas”. Em volta, os moradores tinham uma série de serviços à disposição: armazém, padaria, farmácia, barbearia, torrefação de café, bar, cinema e pensão.
 
“As edificações e equipamentos do bairro fazem parte de um modelo muito comum à época, dando apoio ao funcionamento da usina e fábrica de papel por meio de diversos serviços, incluindo igreja, comércio para atender operários e familiares, escola, ambulatório médico e odontológico. Todos privados e mantidos pela usina”, ressalta Caldari. Morganti morreu em 1941, antes da inauguração do aeroporto que desejou ver construído em terras do Monte Alegre e depois ganhou seu nome. Foi sucedido pelos quatro filhos (Lino, Hélio, Fúlvio e Renato), que implantaram a fábrica de celulose em 1953. Mas, em 1971, a usina passa para a família Silva Gordo. Acaba fechando as portas nos anos 80. “Sou otimista com esses projetos que olham para o Monte Alegre com sensibilidade ambiental e histórica. Monte Alegre, dos tempos em que José de Alencar olhava o rio Piracicaba e se inspirava para escrever romances, faz seu eterno retorno. Os tempos de glória estão voltando”, conclui Cecílio.
 

 

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